"Queremos buscar a verdade, não importa aonde ela nos leve. Mas para encontrá-la, precisaremos tanto de imaginação quanto de ceticismo. Não teremos medo de fazer especulações, mas teremos o cuidado de distinguir a especulação do fato." -Carl Sagan
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Arquétipo artificial
Transtornos como anorexia e bulimia, por exemplo, motivam pessoas de peso adequado a realizarem procedimentos cirúrgicos invasivos, como operações para redução de estômago, sem qualquer motivo aparente. Ademais, soma-se ao desespero do paciente anoréxico por fazer uma cirurgia desse porte, o espírito capitalista e inconsequente de alguns médicos, que aprovam, não poucas vezes, a atitude de garotas que sofrem de transtornos alimentares, enebriadas por seu quadro clínico. Cirurgias, por serem atividades delicadas que, frequentemente demandam que seja aplicada anestesia geral, não devem ser efetuadas ao bel prazer do paciente, mas devem sim ser feitas em último caso, quando não houver mais opções ao tratamento da doença, como é o caso de angioplastias, cateterismos, colocações de marca-passo, etc.
Amantes de plásticas, nesse caso, por contrariarem a literatura médica e arriscarem-se a cirurgias complicadas apenas por vaidade, parecem desprovidos de bom-senso. Não é sabido arriscar a própria vida por tendências de modas efêmeras, que não duram mais que uma geração e que podem, fatalmente, gerar consequências nefastas não só para o corpo, mas também para a auto-estima dos pacientes. Afinal, quem é que nunca soube de casos de cirurgiões plásticos, dotados de pouco talento, que deixaram cicatrizes irreparáveis no corpo de adolescentes ou até mesmo, por descuido, as mataram, como foi o caso do Dr. Hekel, médico desta cidade de Uberaba. Ademais, é conhecido como as tendências estéticas são mutáveis e como variaram durante as várias eras da existência humana; haja visto o padrão de beleza clássico, por exemplo, no qual mulheres obesas eram sinônimo de idolatria, em contraste com o arquétipo magro da mulher contemporânea.
Por fim, é fato que a cirúrgia plástica e a preocupação estética pessoal, se vistas sob uma ótica ponderada e sadia, são construtivas ao homem. Seja com a reconstrução facial de acidentados para posteriormente reinserí-los na sociedade, seja com a pesquisa dos genes responsáveis pelo envelhecimento corporal humano, a medicina avança no sentido de proporcionar conforto e longevidade àqueles que almejam uma qualidade de vida melhor. A ciência, assim, apesar dos contra-tempos gerados pelo mau uso da cirúrgia plástica e pelos ditames da moda contemporânea, é benéfica para os que buscam o bem-estar físico e mental.
Na sociedade atual, portanto, as pessoas são, não raramente, tão inocentes quanto aos riscos em potencial proporcionado pelas cirúrgias plásticas e cegas quanto à efemeridade da moda a ponto de submeterem-se a processos cirúrgicos, por vezes invasivos, com o intuito de adequarem seus atributos físicos aos ditames efêmeros vigentes. Soma-se a isso os problemas acarretados por operações mal-sucedidas, que podem estigmatizar fisico-psicologicamente esses pacientes aventureiros, que buscam, invariavalmente, formas de inserirem-se na sociedade moldada pela moda.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Peleguismo educacional

O ENEM desse último fim de semana têm causado um tremendo reboliço. Seja com os problemas das provas amarelas, seja com a inversão das disciplinas no gabarito e o despreparo dos fiscais, muitas vezes inocentes quanto às regras do concurso, o Exame Nacional do Ensino Médio, novamente, mostrou-se um fiasco. Apesar de Fernando Haddad insistir em manter o último exame em voga, o ministro da educação parece míope quanto aos parcos atributos da educação brasileira e insistente no que tange um modelo de prova pouco promissor aqui, dado que o ensino brasileiro é ainda precoce demais para aportar propostas tão ambiciosas quanto as do novo Enem. Não foi sagaz mirarmos em países mais desenvolvidos que o nosso, dotados de níveis educacionais muito superiores e tentarmos clonar modelos de exame que não condizem ainda com o perfil do contingente discente brasileiro. Assim, ouso afirmar que, caso não façamos uma reforma drástica na educação, principalmente na base do ensino, não teremos maturidade suficiente para fazermos um ENEM digno de louvor, um exame seletivo que prime, de fato, pelo entendimento do conteúdo em detrimento da memorização.
Como estudante a algum tempo, pergunto-me se isso tudo vai mudar. Indago-me se meus filhos e netos vão ter ainda que passar pelo que passo, se vão ser lecionados por professores mecânicos, que conhecem, na maioria das vezes, somente suas disciplinas e que têm uma visão tão estreita do mundo ao ponto de tratarem as demais matérias como menos importantes; um conceito obtuso, haja visto que, majoritariamente, esses docentes desconhecem os campos do ensino distintos dos seus. Questiono-me se meus descententes vão ter que aprofundar tanto em trigonometria caso almejem uma carreira em biomédicas, se terão de estudar ciências sem saber ao certo quais são os princípios do método científico, ou então serão obrigados a absorver o conhecimento sobre evolução sem, de fato, compreender a beleza e a sutileza do processo evolutivo. Sinceramente, preocupo-me com a imutabilidade do ensino brasileiro e com número de colegas não-leitores que tenho, desprovidos de curiosidade e de sede pelo conhecimento e penso ainda que isso tudo seja talvez reflexo da educação que tivemos, deficitária em diversos aspectos.
Afirmo que tive poucos professores inspiradores, capazes de transformar conhecimento em poesia e que fui ensinado, principalmente, por pessoas maquinistas, com uma visão restrita da inter-relação entre as disciplinas básicas. Conheci poucos docentes que passaram documentários em sala de aula, que promoveram bons debates posteriormente sobre o filme e que foram capazes de citar fontes variadas para os curiosos pesquisarem e extraírem mais conhecimento sobre o assunto. Pelo contrário, foi lugar comum em minha vida estudantil o mesmo ambiente escolar enfadonho, sempre marcado pelas aulas tradicionais com o professor lecionando no quadro negro e os estudantes, bovinamente, fazendo suas anotações e fingindo que estão aprendendo.
Não sou pedagogo para dizer qual a melhor forma de reformar nosso ensino, mas digo por experiência própria que uma reforma deve ser feita urgentemente, uma reformulação principalmente no que tange a formação do professorado. Ademais, parece que tornar-se docente no Brasil está fácil demais, principalmente caso o dotado de licenciatura deseje trabalhar na rede públia, cujo crivo é bem menos seletivo que o da rede privada. Talvez uma melhor remuneração dos docentes resolva parte do problema, pois com o aumento salarial é possível haver maior oferta no mercado de trabalho e, consequentemente, mais opções para os empregadores. Contudo, creio que faz-se necessário também a melhor formação dos que desejam tornarem-se professores e maior incentivo à leitura por parte do Governo nas escolas não só públicas, mas também nos colégios privados. Seria racional que o Estado realizasse medidas capazes de reduzir o preço do livro impresso.
Em síntese, para que o ENEM seja administrado de forma racional e que o exame seja vantajoso, é primordial, primeiramente, uma reforma no ensino brasileiro. Não adianta desejarmos um modelo de prova que privilegie o entendimento e abomine a memorização se nosso ensino básico ainda prima pela alienação. Uma mudança nas diretrizes dos parâmetros curriculares das escolas em conjunto com a melhor remuneração e qualificação do professorado talvez seja uma das maneiras de se solucionar, parcialmente, o problema.
domingo, 31 de outubro de 2010
Fatos e inverdades

Fim de eleições, momento oportuno, portanto, para discutir um assunto deveras natural: mentiras. Propagar inverdades não é uma característica inerentemente humana, pelo contrário, ao observar-se a natureza, torna-se trivial a citação de exemplos que ilustram o quanto a Evolução favoreceu organismos mentirosos. A mentira está em toda parte: vírus enganam o sistema imunológico de seus hospedeiros, plantas dissimulam para livrarem-se de seus predadores, animais blefam para conseguir alimento. Mentir está praticamente inscrito no DNA.
Apesar de práticas inverossímeis ser lugar-comum no mundo natural, é o homem, artista maior, o capacitado de pronunciar maior número de inverdades para favorecer-se em situações diversas. Alguns estudos sugerem que bebês de seis meses já são capazes de simular choro para atrair a atenção de seus pais e que, em uma mera conversa de dez minutos entre adultos, são pronunciadas não menos que três mentiras por parte de cada um inserido no diálogo. Mas por que fazemos isso? Por que temos tamanha predisposição em não dizer a verdade?
Das pintas do leopardo à camuflagem do camaleão, a natureza rescende a engodo. É evolutivamente vantajoso faltar com o que é factual. Seja com mentirinhas inofensivas, como elogiar a comida de uma anfitriã, seja com práticas mais ardilosas como mentir por auto-promoção, falsificar os fatos proporciona ao homem vantagens psicológicas para lidar consigo mesmo. O bom e velho autoengano é, nesse caso, uma ferramenta poderosa para o ser humano continuar com seu cotidiano, serve como acalento para suas desilusões amorosas, para suas crenças religiosas, para seus momentos de desespero e de perdas materiais. É mais fácil mentir que encarar os fatos.
Estamos sedentos para crer em uma vida após a morte, em um consolo para a efemeridade de nossa existência, em um significado maior para nossa estada na Terra e, frequentemente, estamos dispostos a apelar ao sobrenatural para explicar nossos porquês existenciais. O autoengano, contudo, apesar de faltar, comumente, com a verdade, foi fundamental para nossa sobrevivência. Cientistas estudiosos de casos depressivos, por exemplo, chegaram a conclusão de que pessoas que fazem uma avialiação realista demais de si mesmas, são mais propensas a manifestarem quadros de depressão. Além disso, evolutivamente, nossos cérebros estão muito propensos a aceitar como verdade quaisquer declarações que cheguem até nós e, apesar de, na maioria das vezes elas serem mesmo verdadeiras, seria muito custoso para nossa espécie duvidar de tudo que ouvimos. Psiquiatras classificam como paranóicos indivíduos que duvidam até de sua própria sombra.
A mentira é, portanto, um costume comum não só entre nós, ditos racionais, mas também no mundo natural como um todo. Nossas inverdades, apesar de mais ardilosas que a dos demais organismos, não nos torna distintos dos outros animais, das plantas, dos protozoários, das bactérias, dos vírus, mas ilusta nossa insegurança quanto a assuntos desconhecidos e servem como ferramentas para nosso consolo.
domingo, 17 de outubro de 2010
Por que voto em Dilma Rousseff

A primeira razão que me faz votar na canditada do PT é o fato de não ser simpático ao PSDB. Seja com FHC e seus programas de privatizações, seja com José Serra e sua não-discussão a respeito da tributação regressiva, ambos tucanos primam por um governo com propostas de caráter elitista, que negam a realidade brasileira. O PT de Lula, ao contrário, mostra o quanto a sigla dos trabalhadores é mais madura e enxerga os empecilhos de nosso país. Afinal, foram 21 milhões de brasileiros que deixaram a miséria e outros 32 milhões que ascenderam a classe média, números pouco menores que a somatória da torcida do Flamengo e do Corinthians. Só para não parecer cabeça-de-planilha, é bom ressaltar que isso representa uma queda de quase metade da pobreza no Brasil. Alguns podem estar se perguntando "mas não seria melhor se a miséria tivesse sido erradicada?". Claro que seria, mas o problema é que 8 anos é muito pouco tempo para solucionar um problema que aflinge o país há séculos. Assim, seja durante o perído colonial, no qual a sangria do país era feita por Portugal por meio do Pacto Colonial, seja durante a Repúblia Oligárquica, quando a concentração fundiária brasileira foi consolidada, a desigualdade social foi construída muito cedo em nosso país e não é possível, em um curto governo, que esses empecilhos seculares sejam resolvidos. Além disso, ouso afirmar que um voto a favor de um candidato tucano serve como apoio à desigualdade da destribuição de renda, como suporte a tributação relativa em menor grau para os mais ricos e o aumento da massa de miseráveis que ainda assola o Brasil.
Algumas pessoas negam os fatos ao chamarem o governo Lula de assistencialista e populista. Caso assim seja, o assistencialismo torna-se o primado de qualquer governo europeu, que por excelência, tem uma política de Estado mínimo capacitada de garantir educação para todos, de assegurar um programa de saúde efetivamente qualificado, de oferecer moradia para os menos capacitados, etc. É complicado apoiar os governos europeus, que regem seus países por meio da melhoria da qualidade de vida dos menos favorecidos, e taxar o governo petista como assistencialista, com uma política paternalista demagógica. Ademais, é conveniente também ressaltar que o conceito de populismo pode ser pouco aplicado ao Brasil de hoje. Governos populistas, como foram os de Vargas, Perón e Cárdenas relizaram políticas nacionalistas de substituição de importações, estatização de atividades econômicas, imposição de restrições ao capital estrangeiro e eram caracterizados por um culto a personalidade do presidente. Lula, contudo, apesar de ter um índice de aprovação governamental que beira os 80%, não freou o capital internacional, não estabeleceu um vínculo emocional e não-racional com o povo (as estatísticas de desenvolvimento provam bem isso) e não promoveu passeatas, desfiles nos quais cartazes gigantescos com sua foto seriam símbolos de idolatria pela classe operária. Chamar o governo petista de populista, portanto, é negar a definição histórica de populismo político.
Agora que falei tanto de Lula e praticamente nada de Dilma, alguns devem estar se perguntando: "isso tudo o que você disse foi o governo do atual presidente, como uma candidata com um histórico político tão pobre, sem carisma e expressivdade alguma, pode garantir o desenvolvimento de nosso país?". Combato esse argumento lembrando que é inocente demais afirmar que, em nosso país, a figura do presidente é preponderante e de suma importância, a ponto de ofuscar os demais poderes. Convém lembrar que vivemos em uma democracia e não em uma ditadura, que nosso governo possui, graças a Montesquieu, três poderes e que o legislativo exerce papel fundamental em uma instituição democrática como a nossa. Assim, rogo do pressuposto de que, por a câmara alta e baixa do Congresso estar, atualmente, repleta de representantes da base aliada do PT, o governo de Dilma não será solitário, mas apoiado pela maioria dos constituintes dos demais poderes. De mais a mais, dizer que Dilma é a sombra de Lula parece negligenciar o fato de que a candidata, como ministra, acompanhou de perto o governo lulista e que, no mínimo, apoiou tudo o que o atual presidente fez, seja quando alavancou o consumo interno, por meio da redução do IPI, e assegurou que o Brasil não fosse afetado fortemente pela crise imobiliária norte-americana, seja com o fato de nós termos nos tornado não mais devedores, mas credotes do FMI. Não nos esqueçamos também que Dilma tem uma trajetória singular, como também tiveram FHC e Lula, visto que foi guerrilheira, torturada durante a ditadura e lutadora a favor de um governo democrático.
Por último, a candidata petista tem meu voto pelo programa do PT no que tange o ensino universitário. É inegável que FHC, durante seu governo neoliberal, fez com que brotassem várias instituições privadas de ensino, muitas destas sem qualidade alguma, que podem ser caracterizadas como verdadeiros negócios oportunistas. Então, acho racional, como uma pessoa que almeja a vaga em uma universidade pública de qualidade, o apoio ao governo petista, que nos últimos anos investiu massivamente nas instituições públicas de ensino. Lula, por exemplo, teve papel fundamental na criação de universidades como a UFTM, UFABC, UFT, UNIFAL, unipampa, etc. Creio, portanto, que seria mais construtivo, como estudante, que o próximo governo continuasse a investir largamente em educação de qualidade, que aumentasse o número de instituições de ensino superior públicas, que gerasse maiores oportunidades de acesso à educação para aqueles com baixa renda e que fomentasse práticas como aumento salarial para professores da rede pública. Acredito, também, que proposta tucana nenhuma é capaz de satisfazer o que almejo e que um governo que prime pelo continuísmo do atual é, no mínimo, melhor que a manutenção das elites no poder.
domingo, 26 de setembro de 2010
Tiririca: pior do que está, fica

Acabo de ler que o promotor Antônio Ribeiro Lopes, da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, pediu ontem (25/09) autorização para fazer um teste de leitura e escrita com o palhaço Tiririca. As suspeitas de que o candidato a deputado federal fosse iletrado, o que impediria sua candidatura, veio de uma recente reportagem publicada pela revista Época, a qual mostrava indícios de que Tiririca seria analfabeto. Escrevo hoje com o objetivo de ilustrar como a eleição de Francisco Everaldo Oliveira Silva, o Tiritica, pode agravar a situação política vigente. Teoricamente, nada impede a candidatura do humorista e cantor: é brasileiro, maior que 21 anos de idade, está alistado como eleitor, filiado a um partido político e em plena posse de seus direitos políticos. Logo, pode votar e ser votado da mesma maneira que qualquer professor doutor em política, visto que o regime democrático de nosso Estado assegura a igualdade dos direitos civis. A democracia assim, afirma a legitimidade da candidatura até mesmo de figuras exóticas como Mulher Pêra, Ronaldo Ésper, Sr. Marido da Mulher Maravilha, etc. Indivíduos dotados, comumente, de nenhum conhecimento político, que orbitam a esfera do plenário com o objetivo de corromper a máquina do Estado, extorquir, praticar nepotismo e garantir influência no meio social. O regime democrático, portanto, apresenta certa dicotomia: apesar de ser o melhor sistema governametal que conhecemos, é gerador também de entraves como a possível eleição de figurões que atraem o populacho, eleitores por inércia, desprovidos de qualquer consciência política e capazes de votar no primeiro palhaço que apareça. Somam-se aos riscos da democracia (não para a democracia) o voto proporcional, que faz com que personagens como Tiririca tornem-se verdadeiros "puxadores de votos", o que pode proporcionar consequências nefastas ao Congresso Nacional, pois canditatos com grandes números de votos levam consigo membros de seu partido, que por vezes são verdadeiros crápulas: Valdemar da Costa Neto é um deles, que renunciou a seu mandato em 2005, por conta de envolvimentos com o Mensalão.De mais a mais, alguns vêem a votação em figuras excêntricas como voto de protesto, contudo, pergunto-me se essa forma de manifestação, reflexo de uma suposta insatisfação política, seja a maneira mais racional de lidar com a corrupção. O preço a ser pago por votar como forma de protesto em candidatos como Tiririca é alto demais, visto que pelo voto de legenda, "puxadores de votos" como ele podem levar consigo a escória das candidaturas. Em síntese, a candidatura de Tiririca não passa de piada pronta. Canditatos com propostas vazias e sem o menor conhecimento de política não devem ser levados a sério, devem sim ser vistos apenas como sombras, como pessoas que se forem eleitas, o serão por eleitores como eles, desprovidos de qualquer entendimento político. Situações como essas são reflexos da democracia, que apesar dos prós diversos que tem, ilustra também como pode gerar um eleitorado alienado, capaz de eleger palhaços.
domingo, 19 de setembro de 2010
Mais um estupro ético de nossos legisladores

Depois de uma semana sem internet, ou seja, quase morto, venho comentar um pouco a respeito do absurdo Projeto de Lei (PL) 478/07, mais conhecido como Estatuto do Nascituro. Basicamente, o irracional PL propõe a igualdade do direito à vida entre seres já desenvolvidos, leia-se as progenitoras dos embriões, e organismos que possuem ainda apenas potencial vital, ou seja, os conceptos, e indiretamente cria empecilhos não só de ordem ética e moral, mas também de caráter científico. O estatuto restringe o acesso de mulheres grávidas ao aborto terapêutico e a uma série de tratamentos de saúde, impede as pesquisas com células-tronco embrionárias e pode, mais absurdamente criminalizar gestantes por atos simples como a realização de trabalhos domésticos. Além disso, o Projeto de Lei, que felizmente ainda não passou pelo Congresso e pode ser vetado pelo presidente (ou mais provavelmente presidenta), desenvolve a surreal idéia de que um embrião fertilizado "in vitro", mantido em uma clínica de fertilização, merece proteção igual ou maior que uma pessoa já nascida. Nossos legisladores, mais uma vez, mostram-se desprovidos de qualquer capacidade cognitiva, de bom senso, lucidez e fazem-nos, por meio de um PL como esse, refletir a respeito da situação política vigente, repleta de propostas esdrúxulas e irracionais que podem de fato entrar em vigor em nosso país e agravar não só a situação das mulheres brasileiras, mas também dos profissionais da saúde.
Coloco aqui alguns excertos do Wordpress "contra o estatuto do nascituro (http://contraoestatutodonascituro.wordpress.com/)" e ao fim do post o link para a petição eletrônica contra o projeto.
Proibição do aborto terapêutico e restrição da gestante a tratamentos de saúde contra doenças como o câncer: O Art. 4º do PL diz que o nascituro deve ter assegurado, com ”absoluta prioridade”, entre outras coisas, seu direito à vida, à saúde e ao desenvolvimento. ”Absoluta prioridade” significa prioridade sobre qualquer direito de qualquer pessoa, inclusive os da mulher que o carrega. Isso significa que a gravidez não pode ser interrompida mesmo que ameace a saúde da gestante, pois a ”vida” do feto tem prioridade sobre a saúde da mulher. Como o Art. 5º do projeto determina que qualquer ”violência” contra o nascituro será punida na forma da lei, um tratamento de saúde que ameace a continuidade da gravidez pode ser considerado ilegal, com a consequente punição dos profissionais responsáveis por ele e da paciente. Quando os abortos terapêuticos foram proibidos na Nicarágua, em 2006, os profissionais de saúde passaram a trabalhar com tanto medo de persecução penal e perda das licenças profissionais, que a consequência foi que gestantes tornaram-se incapazes de ter acesso a tratamentos como quimioterapia, radioterapia, cirurgia cardíaca e até mesmo analgésicos, pois tudo isso pode afetar o embrião ou feto. O medo de participar em um processo de abortamento (espontâneo ou provocado), mesmo que seja para interrompê-lo, é tão grande que mulheres com hemorragia simplesmente não recebem atendimento médico. Segundo a organização internacional Human Rights Watch, só no primeiro ano de legislação proibitiva, 82 mulheres morreram. Na página ”Como a proteção ao nascituro está matando mulheres na Nicarágua” você pode conhecer casos como o da mulher nicaraguense com câncer no cérebro que passou um mês jogada em um hospital sem receber quimioterapia ou alívio para sua dor. No link á direita desta página, você pode ler o relatório Over Her Dead Bodies (Por Cima de Seus Cadáveres), elaborado pela Human Rights Watch sobre a situação naquele país.
Criminalização de mulheres grávidas e do aborto espontâneo: Em países com legislações que punem atos contra o nascituro, como os EUA, mulheres grávidas são tratadas como criminosas em potencial. Em alguns Estados, elas podem ser investigadas e processadas se consideradas responsáveis por atos que ameacem o feto. Em outros, podem ser internadas contra sua vontade em hospitais, mesmo que a existência de filhos pequenos ou a necessidade de trabalhar tornem a estadia extremamente desaconselhável. Em alguns lugares, podem ser condenadas por homicídio se consideradas responsáveis pelo nascimento de um bebê natimorto. Na página ”Como a proteção ao nascituro gera violações aos direitos de mulheres grávidas’, você pode ler casos como os da mulher grávida investigada pela polícia por ter caído nas escadas, o da mulher internada à força em um hospital após recusar-se a passar 03 meses longe de seus filhos, e perder seu emprego) e o da jovem de 15 anos acusada de homicídio quando deu à luz um natimorto.
Essa lei criminalizaria principalmente mulheres pobres por não ter acesso a informação e a uma rede de apoio adequada. Talvez fazer trabalhos domésticos pesados, carregar crianças no colo, andar de moto ou de bicicleta, apenas para citar alguns exemplos, não sejam os atos mais recomendáveis para uma mulher com uma gravidez de risco. Mas muitas vezes não existe alternativa para a mulher que é pobre, mãe solteira, não pode deixar de trabalhar e não tem ninguém que possa cuidar de sua familia, ou que possa fazê-lo permanentemente. Embora algumas gestações exijam que a mulher faça pouco ou nenhum esforço, o repouso absoluto não é uma opção para a grande maioria das mulheres brasileiras. E nenhuma mulher deveria ser punida por tentar prover sua subsistência e a de sua família.
Mesmo quando o ato é claramente prejudicial, como o fumo ou o uso de drogas, a criminalização do comportamento da mulher durante a gravidez é desaconselhada por todos os organismos de saúde que já conduziram estudos sobre o tema. Nos EUA, onde gestantes podem ser presas e perder a guarda dos filhos por uso de drogas durante a gravidez, algumas cidades chegam ao cúmulo de conduzir testes toxicológicos em todas as pacientes que chegam ao hospital para dar à luz ou buscando cuidados pré-natais. Se é descoberta a presença de drogas no organismo, a polícia é chamada e a mulher é imediatamente presa (algumas ainda sangrando devido a complicações do parto). A Associação Americana de Saúde Pública, Associação Médica Americana, e o Conselho Nacional de Uso de Drogas e Álcool são contra a persecução criminal de gestantes por uso de drogas, já que numerosos estudos comprovam que tal política evita que as mulheres procurem cuidados pré-natais e tratamento contra a dependência, causando muito mais mal a sua saúde e à do feto.
Existe ainda o problema de determinar exatamente o que foi responsável pela ”violação ao direito do embrião”. Há que se perguntar se é sensato submeter uma mulher que acabou de passar pela experiência traumatizante de um aborto espontâneo (evento que pode ocorrer em cerca de 25% das gestações) a uma investigação para determinar sua culpa no evento, e quem sabe puni-la por isso. É um verdadeiro atentado contra sua saúde mental, considerando que a maioria das mulheres experimenta sensação de culpa pelo abortamento, independentemente de sua responsabilidade nele, e sintomas de depressão e luto que, sem tratamento, podem inclusive agravar-se para um quadro de depressão clínica. Apontar o dedo para esta mulher em busca de sua parcela de culpa no evento é violar o direito constitucional de não sofrer tratamento cruel, desumano ou degradante.
Proibição e criminalização de pesquisas com células-tronco: a pesquisa com células-tronco embrionárias, realizada com embriões fertlizados ”in vitro”, é de enorme importância na busca de cura para doenças hoje consideradas incuráveis, como a distrofia muscular progressiva (doença que gera degeneração dos músculos, culminando em comprometimento dos músculos cardíacos e respiratórios), diabetes, doenças neuromusculares, renais, cardíacas ou hepáticas. Ela é realizada com embriões que seriam descartados por clínicas de fertilização in vitro. O Supremo Tribunal Federal decidiu em 2008 que esse tipo de pesquisa não viola o ”direito à vida” do embrião, pois este direito é inexistente, e integra o direito fundamental à saúde. Já que o Estatuto do Nascituro pretende punir qualquer violação ao ”direito à vida” de embriões, inclusive os fertilizados in vitro, o Projeto passa por cima da interpretação do STF, guardião e intérprete maior da Constituição, viola o direito inviolável à saúde, e pretende reinstaurar a vergonhosa situação em que embriões que poderiam salvar vidas eram descartados no lixo.
Petição: http://womensrights.change.org/petitions/view/rejeite_o_estatuto_do_nascituro_proteja_a_saude_das_mulheres_e_a_terapia_com_celulas-tronco_2
domingo, 5 de setembro de 2010
Desvendando "O Segredo"

Anteontem, dia 3 de setembro, encontrei na Biblioteca Pública Municipal Bernardo Guimarães um anúncio a respeito de uma palestra que ocorrerá na sexta-feira próxima, dia 10 de setembro, a respeito da famigerada obra literária e documentária "O Segredo". Escrevo por estar compelido a criticar algumas afirmações pseudocientíficas que o ducumentário faz e que conquista um grande contingente populacional. Independentemente de ser um livro de auto-ajuda ou não, a compilação de Rhonda Byrne faz afirmações pouco verificáveis e utiliza-se da física quântica como embasamento teórico para sua "lei da atração". Segunda essa lei, que não é originalmente sua diga-se de passagem (não só o apóstolo São Marcos tinha a sua versão do "peça-acredite-receba", como também possuia Buda uma idéia similar que dizia "tudo o que somos é o resultado de nossos pensamentos"), o universo seria influenciado pelos pensamentos humanos e agiria de acordo com nossos desejos. Assim, o documentário postula que para conseguir-se algo é necessário enviarmos sinais mentais para o cosmos para que ele os interprete e os converta em possibilidades terrenas, como por exemplo, a obtenção daquela tão sonhada bicicleta na infância.
Primeiramente, gostaria de deixar uma questão clara: o que combato aqui não são a auto-estima pessoal, o otimismo e a força de vontade que as pessoas têm e que as ajuda de fato a superar situações difíceis como doenças, problemas pessoais e dificuldades financeiras. O que critico nesse pequeno artigo é a crença em um universo preocupado e ligado com a raça humana, capaz de realizar seus menores caprichos como demandas amorosas e monetárias. Como bem observou o notável físico estado-unidense Richard Feyman "posso dizer seguramente que ninguém entende a física quântica" e "se você acha que entendeu alguma coisa de mecânica quântica, é porque você não entendeu nada". Portanto, por a física moderna ser um campo tão desconhecido e que beira por vezes o bizarro, mascarar a "lei da atração" com viés quântico é no mínimo absurdo, visto que afirmar tão contudentemente, como fazem os pseudocientistas no documentário, que a lei possui evidências científicas é ignorar os fatos e a complexidade do mundo quântico. Então, existe uma enorme diferença entre perseguir aquele bônus de final de ano e acreditar que sua conta bancária vai aumenta , caso você escreva zeros com uma caneta à direita do seu saldo, como afirma o filme "O Segredo". Seria sensato também mostrar o quanto o documentário é oportunista e assemelha-se àqueles infomerciais, programas com aparência informacional mas com caráter comercial embutido, como aqueles clássicos da Polishop. E isso tudo é muito preocupante não só por manter a população ignorante da verdade mas também por ser uma oportunidade para charlatões de plantão extorquirem o dinheiro das pessoas. Imagine só se a moda de recicliar velhos esoterismos pega.. teríamos daqui a pouco homeopatas, astrólogos, quiromantes e radiestesistas com um segredinho para vender por R$39,90.